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domingo, 21 de outubro de 2007

Quero é ser Paxá

Aqui estou eu, nesta tarde de domingo ensolarado. Como sempre, sentado no sofá, na única posição da casa que me permite acesso à internet. Mentira. Na cadeira Luiz XV que me tortura as costas também pego o sinal wireless. Mas, como vocês sabem, nela não dá mais.

Hoje, depois de me empapuçar com o empadão da Jailma, cozinheira que bate ponto aqui em casa toda quinta-feira e é uma espécie de Claude Troisgros popular, prostrei-me no sofazão branco da sala. Justamente aquele que minha mãe cobre com uma capa, para eu não sujá-lo ao colocar os pés sujos em cima do seu alvo tecido.

Abro o jornal O Globo, que nunca leio pois detesto jornais, e contrario a minha regra. Leio. Ando recebendo diariamente exemplares de O Globo aqui em casa, fruto de uma mala direta muito simpática que chegou dia desses, dizendo que eu era um entre 200 do meu bairro que foram agraciados com a promoção patati-patatá e coisa e tal. Sendo assim, de grátis, 0800, não dá pra pelo menos não sujar os dedos. Pois afinal, é pra isso que serve jornal. Sujar os dedos e colocar como forro de gaiola de passarinho. Aliás, ô porcaria velha e ultrapassada. Ô mídia decrépita. Só permanece pelo tradicionalismo de ter sido a primeira. Tem um tamanho desagradável, quase ultrajante. Não dá pra ler senão sentado, com ele estatelado sobre uma mesa. Já experimentou ler no avião? Apertadinho. Ou no ônibus? Em que aquele remelexo faz as páginas saírem todas de esquadro. Mais insuportável ainda é o fato de ter todas as folhas soltas, o que dificulta ainda mais o manuseio. (Ahh, agora você entendeu o que o remelexo do ônibus faz com as páginas, hein!). Rapaz (moça), jornal é que nem beijo na boca. É coisa do passado. A impressão é péssima, sempre sujeita ao efeito moiré. A tinta solta na sua mão, deixando as pontas dos dedos cinza. Do formato já falamos. Nem mesmo tem dois grampos pra fixar o bicho coeso!! É uma bela porcaria. Entretanto, como o estou recebendo de graça, abri pra ler. Na verdade, o que me conduziu à leitura foi a esperança de um bom conteúdo. Em vão. Nem isso. 70% do jornal é propaganda. E, tudo o que eu queria era fugir do trabalho. Mais propaganda... Passo o dia estudando ou trabalhando com propaganda. Quando tento fugir, sete em 10 páginas estão repletas delas. Por fim, no final, tenho que arrumar a sala, que ta parecendo – que coincidência! – uma gaiola de canário, de tanta folha de jornal que tem no chão!

De onde estou tirando tanta abobrinha? Só pode ser por estar ouvindo Grateful Dead – Blues for Allah. Rapaz (moça), o que esse som não faz com seus neurônios. Coisa mais psicodélico-lisérgica. Mas muito bom. Às vezes é música de elevador. Às vezes irrita. Não obstante, musica de elevador irritante, algumas ocasiões, é bom pacaralho.

Dei uma paradinha aqui e fui checar meus e-mails. Outra constatação: por que cargas d’água eu recebo um monte de spam com o mote de “aumente seu pênis”? Estão querendo me dizer algo ou é sacanagem mesmo!? Outro dia meu amigo-irmão disse que ele só recebe spam de “emagreça dormindo”. O fato é, o rapaz em questão tem problema de obesidade. Pera ai! Que porra é essa!? Pó parááá!!

Mudando de assunto, já começaram os ataques às vacas da Cow Parade. Eu não disse? Ok, errata: eu disse que as vaquinhas eram exclusividade da Zona Nobre da cidade. Mas tem, sim, uma vaca na praça XV. (mentira de novo, tem várias, mas participante da Cow Parade tem uma só).

Por fim, confeccionei agora meu sonho de uma noite de verão. Atenção, confeccionei o sonho, o desejo. Realizá-lo são outros quinhentos. O sonho é “nunca mais usar crachá”. Crachá é pra ferrado, fudido, mal pago. Proleta miserável. Crachá serve pra dizer quem você é. Que você trabalha em empresa “tal”, em repartição “qual”. Que pode entrar porque tem crachá. Rock Star não usa crachá. Político não usa crachá. Atleta famoso não usa crachá. Dono da empresa não usa crachá. Crachá não é pra paxá (que vem do Turco, e significa “excelência”, “homem que tem várias amantes; sultão”).

Paxá não usa crachá. E eu quero é ser paxá.